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PRA MARTE
LETRAS E FICHA TÉCNICA

 

capa pramarte

1. Pra Marte - 4:53
(letra: Mauricio Pereira/música: Daniel Szafran)
violão de aço  Luiz Waack
violão de nylon  Tonho Penhasco
voz, sax tenor  Mauricio Pereira
pandeiro, caxixi  Skowa

beijar-te e fazer sentido
querer-te
e me sentir feito um foguete
que prosseguiu subindo
pra Marte
onde te viu sorrindo
e é lindo
um foguete querer-te e ter-te
e infindo
o dever de beijar-te as partes do mundo
em que escondes teus pensamentos
profunda
devoção sem nenhum respeito
pressinto
que é o amor se chocando a um tempo de espanto
de beijar-te e se ver
sentindo o encanto
de beijar-te e fazer sentido

Spin BR-S5D-07-00001

 

2. Motoboys, Girassóis, etc. e tal - 2:54
(letra e música: Mauricio Pereira)
bateria  Leandro Paccagnella
baixo  Mano Bap
guitarra  Tonho Penhasco
violão de aço  Luiz Waack
voz  Mauricio Pereira
voz  Skowa

eu tenho minha musa na calçada
andar por São Paulo
horas e minutos me prensam
e eu tenho tempo pra pensar à vontade
contra a minha vontade
assaltado por tesouros da minha cidade
maldita variedade incrível
diamantes brutos
todos putos
interrompidos
trancados no cofre
juniors, curumins e mirins
que a cidade constrói

motoboys
girassóis
etc. e tal

Spin BR-S5D-07-00002

 

3. Ser Boi - 4:33
(letra e música: Mauricio Pereira)
bateria  Leandro Paccagnella
baixo  Mano Bap
guitarra  Tonho Penhasco
violão de aço  Luiz Waack
voz  Mauricio Pereira

ir pra Minas e ser boi lá

mascar, pastar, sorrir, pensar

olhar de rabo de olho
(se é que boi tem isso)
os carros voando na BR
tentar perceber o motor

essas pessoas que têm alma
eu me pergunto por quê
elas vêm e vão para Brasília
em tamanha velocidade

ser a encarnação do boi
esperar a minha hora chegar
sem pressa e sem pressão
divagar bem devagarinho

fixar o olhar no horizonte
encarar demoradamente
se perder da noção da hora
ralar o chifre no mourão da cerca

sorrir e ser boi
sorrir e ser boi em Minas
sorrir e estar em Minas
(sorrir e pisar em Minas)

e enxergar além da cerca
sonhar pra além da colina
daquela gente toda na BR
além do limite de velocidade

sorrir ao respirar
curtir a gramática
viver a dialética
o bafo quente do pasto

mugir graúdo à sombra desta velha
e majestosa mangueira carregadinha
(fazer mil versos como esse anterior)
pastar, sorrir, pensar, olhar

um coração de boi
sem prece, sem perdão
sangrar no arame farpado
chifrando algo ou alguém

concluir o mundo e senti-lo
concluir o mundo a senti-lo
me excluir do mundo, tranquilo
minhocar sobre as razões das gentes

te olhar e babar
em você, em mim ou no capim
calar e compreender
te olhar e pastar

mugir pro céu e agradecer
querer reverenciar
este momento singelo
de comer quieto com o anu nas costas

sorrir e balançar
sorrir e balançar a cabeça
desatinar que nessa mesma hora
toda aquela gente estoura

os limites da velocidade
a estrada deserta atrás da cerca
aquilo que parece ser
o motor das pessoas

ir pra Minas e ser boi lá

Spin BR-S5D-07-00003

 

4. Trovoa - 5:23
(letra e música: Mauricio Pereira)
bateria  Leandro Paccagnella
baixo  Mano Bap
violões de aço e nylon  Tonho Penhasco
guitarra  Luiz Waack
voz  Mauricio Pereira

minha cabeça trovoa
sob meu peito te trovo
e me ajoelho
destino canções pros teus olhos vermelhos
flores vermelhas, vênus, bônus
tudo o que me for possível
ou menos
(mais ou menos)
me entrego, ofereço
reverencio a tua beleza
física também
mas não só
não só

graças a Deus você existe
acho que eu teria um troço
se você dissesse que não tem negócio
te ergo com as mãos
sorrio mal
mal sorrio
meus olhos fechados te acossam
fora de órbita
descabelada
diva
súbita…
súbita…

seja meiga, seja objetiva
seja faca na manteiga
pressinto como você chega
ligeira
vasculhando a minha tralha
bagunçando a minha cabeça
metralhando na quinquilharia
que carrego comigo
(clipes, grampos, tônicos):
toda a dureza incrível do meu coração
feita em pedaços…

minha cabeça trovoa
sob teu peito eu encontro
a calmaria e o silêncio
no portão da tua casa no bairro
famílias assistem tevê
(eu não)
às 8 da noite
eu fumo um marlboro na rua como todo mundo e como você
eu sei
quer dizer
eu acho que sei…
eu acho que sei…

vou sossegado e assobio
e é porque eu confio
em teu carinho
mesmo que ele venha num tapa
e caminho a pé pelas ruas da Lapa
(logo cedo, vapor… acredita?)
a fuligem me ofusca
a friagem me cutuca
nascer do sol visto da Vila Ipojuca
o aço fino da navalha me faz a barba
o aço frio do metrô
o halo fino da tua presença

sozinha na padoca em Santa Cecília
no meio da tarde
soluça, quer dizer, relembra
batucando com as unhas coloridas
na borda de um copo de cerveja
resmunga quando vê
que ganha chicletes de troco

lebrando que um dia eu falei
“sabe, você tá tão chique
meio freak, anos 70
fique
fica comigo
se você for embora eu vou virar mendigo
eu não sirvo pra nada
não vou ser teu amigo
fique
fica comigo…”

minha cabeça trovoa
sob teu manto me entrego
ao desafio de te dar um beijo
entender o teu desejo
me atirar pros teus peitos
meu amor é imenso
maior do que penso
é denso
espessa nuvem de incenso de perfume intenso
e o simples ato de cheirar-te
me cheira a arte
me leva a Marte
a qualquer parte
a parte que ativa a química
química…

ignora a mímica
e a educação física
só se abastece de mágica
explode uma garrafa térmica
por sobre as mesas de fórmica
de um salão de cerâmica
onde soem os cânticos
convicção monogâmica
deslocamento atômico
para um instante único
em que o poema mais lírico
se mostre a coisa mais lógica

e se abraçar com força descomunal
até que os braços queiram arrebentar
toda a defesa que hoje possa existir
e por acaso queira nos afastar
esse momento tão pequeno e gentil
e a beleza que ele pode abrigar
querida nunca mais se deixe esquecer
onde nasce e mora todo o amor

Spin BR-S5D-07-00004

 

5. Um Tango - 3:50
(letra: Mauricio Pereira/música: Arthur de Faria)
bateria  Leandro Paccagnella
baixo  Mano Bap
guitarra e violão de nylon  Tonho Penhasco
guitarra e guitarra portuguesa  Luiz Waack
voz  Mauricio Pereira
órgão  Daniel Szafran

a primeira vez que o homem pisou na lua
ele já foi pulando
sorriso maroto sob o capacete
fazia contente manobras de skate

é a primeira vez que eu danço no ar
e danço tangos
giramos eu e você
pra quase desfalecer

é a primeira vez que eu falo espanhol
em muitos anos
e eu tenho que caprichar
a lábia é pra te agradar

é a primeira vez
que eu só vejo você em todo canto
segundo meu oculista
não há problemas à vista

é a primeira vez
que você me pendura em suas tranças
e sai balançando
que nem chapéu mexicano
em parque de diversão
.....
é a primeira vez
que só vejo você em todo canto
segundo meu analista
não há problemas à vista

é a primeira vez
que você me pendura em suas tranças
e sai balançando
que nem chapéu mexicano
em parque de diversão

Spin BR-S5D-07-00005

 

6. Pranto Para Comover Jonathan - 3:06
(poema de Adélia Prado musicado por Mauricio Pereira)
in Poesia Reunida, de Adélia Prado, Editora Siciliano, São Paulo/SP © by Adélia Prado
violão de nylon  Tonho Penhasco
guitarra portuguesa  Luiz Waack
voz  Mauricio Pereira

Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.

Siciliano/Spin BR-S5D-07-00006

 

7. A Loira da Caravan - 5:35
(letra e música: Mauricio Pereira)
bateria, percussão  Leandro Paccagnella
baixo  Mano Bap
violão de nylon  Tonho Penhasco
violão de aço  Luiz Waack
voz  Mauricio Pereira

foi voltando pela estrada
de um show em Bauru
era quase meia-noite
e eu cansado pra xuxu
ao meu lado Paulo Freire
violeiro sem igual
testemunha incontestável
dessa história abismal

numa curva lá da serra
descendo pro rio Tietê
o carro desgovernou
sem que eu soubesse por quê
capotou 5 ou 6 vezes
achei que nós ia morrer
foi bater numa mangueira
eu só vi manga descer
.....
o Paulinho olhou pra mim
vi que ele estava bem
tocou a sua viola
que soava bem também
fui andando até a estrada
para procurar ajuda
e uma caravan parou
com uma dona cabeluda

sua voz era bonita
muito rouca e sensual
logo me envolveu com os braços
perguntou: “cê tá legal?”
a noite era muito escura
e não dava bem pra ver
mas que ela tava gelada
isso eu pude perceber
.....
eu fiquei arrepiado
bem no meio do verão
seus lindos cabelos loiros
não sentiam compaixão
eu fiz o sinal da cruz
mas aquela cortesã
já estava me arrastando
para a sua caravan

ainda estava atordoado
pela bruta colisão
inclusive preocupado
se o Paulinho estava bom
ela me beijou na boca
“não preocupa com ele, não:
vamo namorá gostoso
nessa baita escuridão”
.....
eu achei interessante
ela me beijar sem dó
só que os beijos que ela dava
tinha gosto de jiló
porém noite igual aquela
não acontece todo dia
‘proveitei bem o momento
pra namorar a vadia

a sua pele macia
fez o meu sangue subir
suas pernas me enrolava
feito uma sucuri
fui beijar o seu pescoço
ela veio me impedir
“nunca olhe no meu olho”
ela disse para mim
.....
nós já estava no bembom
pitando um bom cigarrinho
o remorso me acordou
“xi, eu esqueci do Paulinho!”
o coitado lá no carro
no fundo da ribanceira
e eu aqui me divertindo
já passou uma noite inteira

sem querer pulei pro lado
qualquer coisa eu enganchei
e o cabelo brilhante
por acaso eu arranquei
“a mulher não tem cabeça!”
e voou pra a eternidade
o carro sumiu também
eu juro que isso é verdade
.....
mas que cena horripilante!
fui pensando no caminho
vão dizer que eu tou maluco
que é que eu falo pro Paulinho?
e é então que eu vejo ele
tocando seu instrumento
pruma moça que dançava
pulando que nem jumento

eu gritei “nossa senhora!
sai de mim alma penada!”
comé que isso é possível
se inda agora lá na estrada
vi ela sair voando
bufando descabelada
com sua caravan de prata
‘tropelando a madrugada
.....
foi então que aquela cena
outra vez aconteceu
uma corda da viola
enroscou o cabelo seu
a loira saiu voando
cabeça não tinha ali
eu fiquei de boca aberta
Paulinho também, que eu vi

nós ficamos em silêncio
empurramo o carro pra estrada
movimento se formando
já raiava a alvorada
inda sem dizer palavra
fomos voltando pra casa
com o coração por dentro
consumindo feito brasa
.....
num posto de gasolina
na cidade de Pardinho
fomos tomar um café
espertar devagarinho
de repente um sentimento
que sobrou daquela noite
foi se apresentando claro
estralando feito o açoite

não tem mesmo escapatória
capricho da natureza
ver que o destino do homem
é confrontar com a tristeza
de arrastar essa saudade
densa, turva, escura, espessa
de querer beijar a boca
de uma loira sem cabeça

Spin BR-S5D-07-00007

 

8. Toscana - 5:17
(letra e música: Mauricio Pereira)
bateria  Leandro Paccagnella
baixo  Mano Bap
guitarra  Tonho Penhasco
violão de aço  Luiz Waack
voz, sax soprano  Mauricio Pereira

canzoni triste e ovvie
che parlano di saudade
quem tá cantando elas?
(eu escuto de longe)

canzoni cantate in riva al mare
(dove non c'e mare)
canzoni che riportano ricordi sorridenti
di ragazzini chiassassi ma giá svaniti…
pequenas idéias
desaparecidas juntas
desaparecidos juntos
desaparecidos pequenos
pequenos espaços
no vácuo que eu carrego em mim há tempos…

insomma
ci manca qualcosa
não tenho por quê brincar:
cadê a algazarra louca
de quei vecchi giovani compagni?

canzoni di poche note
poche parole
– de penumbras –
che si cantano ad occhi chiuse
che si ascoltano ad occhi chiuse
que se fazem sentir…
che fanno il cuore denso:
que fazem do coração um forno aceso

e eu tambem sei cantar
(algumas vezes eu até sou capaz de cantar…)
e alcune volte canto, canto…
canto
canções antigas em línguas mortas
e ao cantar fecho os olhos
e eles me levam direto a você entre as nuvens
(direttamente a te tra le nuvole…)
che non mi lascian veder il mare
(dove non c’è mare…)
que reflete a lua
(quando non c'e luna…)
ma lo so che c’è
(c’è mare… c’è luna…)
chi lo sa…

ed ogni canzone é una calda lettera
che ti scrivo mentalmente
lentamente
senza parole
cartas borradas pela maré
e as letras viram manchas de azul
(lacrime blu versate da occhi chiusi)
que jamais vertem lágrimas
que apenas vêem mar
(onde não tem mar…)

mar onde não tem mar

ainda mentalmente
(lentamente…)
però ancora ad alta voce
(intensamente…)
continuo cantando
queste canzoni ancestrali
poche parole
poche note
melodia nenhuma…
(canções das quais só se escuta os silêncios)
canzoni che parlano de saudade
vc sabe o q é?
saudade…

e eu sinto tua presença
aqui
agora
bem forte
aqui
qui…
- Abbracciami!
e ganho um abraço onde não tem abraços…
tua temperatura, teu peito, teu ventre
o teu tamanho, a penugem do teu pescoço
todo o tempo que dura
– e todo o comprimento –
da tua respiração
eu sinto

eu sinto
no corpo e no espírito
un’allegria intensa
o calor delirante
dentro e fora de mim

sozinho e com você
com você
(onde não tem você…)
in riva al mare
(dove nun c'è mare…)
dove non c’è mai stato
onde jamais houve
(mas eu sei que tem…)

insomma:

chi lo sa?

Spin BR-S5D-07-00008

 

9. Responde Visconde - 2:52
(letra e música: Mauricio Pereira)
violão de nylon  Tonho Penhasco
violão de aço  Luiz Waack
vozes  Mauricio Pereira

responde Visconde, responde Visconde
se a ventania
vai voar na minha cabeleira
feito a tesoura da cabelereira

responde Visconde, responde Visconde
se a raíz quadrada
transforma a árvore num labirinto
onde trepa a molecada

responde Visconde, responde pra mim
qual é a fórmula
do pó de pirlimpimpim

responde Visconde, responde Visconde
porque é que um circo
tem tanta bagunça e tanta brincadeira
que embanana o mico

responde Visconde, responde Visconde
se o arco-íris
vai colorir com suas 7 cores
o caminho que seguires

responde Visconde, responde pra mim
qual é a fórmula
do pó de pirlimpimpim

responde Visconde, responde Visconde
responde pra a gente
como é que uma simples espiga de milho
pode ser tão inteligente?

Spin BR-S5D-07-00009

 

10. Quieto Um Pouco - 4:22
(letra: Mauricio Pereira/música: Dino Vicente)
bateria  Leandro Paccagnella
baixo  Mano Bap
violão de nylon  Tonho Penhasco
violão de aço  Luiz Waack
voz, sax soprano  Mauricio Pereira

difícil notar
a idade que eu tenho
quando eu tô vivendo
difícil dizer
se é saudade que eu tenho
quando eu tô sentindo

vai amanhecer vou por aí sozinho
é…

difícil de crer
a certeza que eu tenho
quando eu tô tentando
difícil brecar
a alegria do vinho
quando eu tô te vendo

vai amanhecer vou por aí sozinho
é…

eu vou caminhar

vou subir um morro
olhar pra a cidade
ficar quieto um pouco
.....
difícil conter
tanta coisa que eu tenho
quando eu tou vazio

Spin BR-S5D-07-00010

 

11. Truques com Facas - 4:38
(letra e música: Mauricio Pereira)
guitarra  Tonho Penhasco
violão de aço  Luiz Waack
voz  Mauricio Pereira

onde você aprendeu esses truques com facas?
você me corta de vez em quando
de vez em quando

você me cobre com um manto de veludo
me aquece, me faz parecer um rei
um rei que eu não sou

vc me prende com um beijo tão cansado
e eu sou os lábios de outro alguém
quem?

você me encanta com canções tão tristes
que o meu coração quer bater devagar
até quase parar

são truques com facas
que soltam faíscas
são truques com facas
são jogos, são iscas
são truques com facas
que soltam faíscas
vêm reto pro peito
e não deixam pistas

Spin BR-S5D-07-00011

 

12. Um Teco-teco Amarelo em Chamas - 3:12    
(letra: Mauricio Pereira/música: Arthur de Faria)
bateria  Leandro Paccagnella
baixo  Mano Bap
guitarra  Tonho Penhasco
guitarra  Luiz Waack
voz  Mauricio Pereira

um teco-teco abatido em chamas
eu sinto o clangor da morte
voando por instrumentos
amasso cartões postais

um teco-teco abstrato em chamas
eu sinto o calor das pistas
suando sem instrumentos
agudos sons de cristais

um teco-teco aturdido em chamas
eu sinto o pavor das alturas
respiro por instrumentos
perfil contra o pôr-do-sol

o tico e o teco explodindo em chamas
eu sinto sabor de mangas
devoro sete instrumentos
pagão numa catedral

um teco-teco amarelo em chamas

Spin BR-S5D-07-00012

 

13. Penhasco - 6:19          
(letra e música: Mauricio Pereira)
bateria  Leandro Paccagnella
baixo  Mano Bap
guitarra  Tonho Penhasco
guitarra  Luiz Waack
voz cantada  Mauricio Pereira
voz falada  Alice Ruiz

   A cidade me paga. Me paga algum dinheiro qualquer pra que tarde da noite na madrugada de algum dia de semana eu saia da cidade e me mantenha quieto e só contra a escuridão quieta e só da noite quieta e estrelada ou não.

   A cidade me paga. Me paga algum dinheiro qualquer pra que eu vá sentar lá no penhasco, ali um pouco além, junto do mar. Pra que exatamente eu fique ali um pouco além dos limites da cidade (que repousa já não tão à beira-mar...). Ali. Vigilante. E num certo sentido, alheio.

   E é no breu que aflora o marulho vibrante. As baixas freqüências. O vento frio é doce e obedece à vida noturna: que tipo de resposta eles tão querendo que eu arranje imediatamente? Será que eu sou só café-com-leite?

   A cidade me paga. Me paga algum dinheiro qualquer, e fica tudo por minha conta, tudo surdo, tudo apegado: a brisa do mar – agora chorosa – volta a cantar. Me conta de flores (já que as estrelas estão esgotadas). A meia-lua não entra. Meia-noite e meia. E nada.

   Rastros de nada, nada de certeza reta. Feliz ou infelizmente, perguntas e mais perguntas. Esses leques de perguntas não têm fim, são simples e sem resolução. Matemáticas que não dependem de mim.

   E eu volto pra a cidade com leques de perguntas sem fim. Sem chance. Eles querem respostas, propostas, fatos, qualquer coisa visível a olho nu. Um simples refrão já resolve, mata de contentamento. Mas por ora o que temos são perguntas.

   Pergunta, resposta, coisa nenhuma, ninguém: eventualmente o vazio espesso sugere a sensação da presença ou da ausência de um deus. E ele esteve ali, agora mesmo, aos urros. E não deixou rastro um segundo depois (tendo ou não estado ali um segundo atrás).

   E uma breve vez os ruídos no precipício foram sussurros de namorados. Eu me atirei pra a cidade, alegre. Dúzias de canções de amor na mão. Canções em que todos são felizes para sempre. Por quase um dia ou dois.

   Não.

   Na noite seguinte eu já confrontava a figura do penhasco na friagem marítima e a palavra especular tornava a ter o sentido justo de uma noite alguém sair do centro da cidade, transpor as muralhas, ir reto e lerdo pro centro da noite e nas beiradas do penhasco se tornar micróbio, respirar fundo e, sem pestanejar, saltar ligado, com os olhos bastante arregalados, rumo a novas coisas nenhumas. Esquadrinhar com as unhas um momento de pedra antes que ele atinja a velocidade do infinito. Ir dar de cara com rochedos incertos, costões antigos, o gosto salgado – gelado – das tais perguntas de sempre. Possíveis ou
impossíveis de fazer. Possíveis ou impossíveis de se perceber quais são. Possíveis ou impossíveis de se entender onde querem chegar.

   E se incrustrar à não presença largada lá, lembrando, mais que escondendo, o quê e quem nos chegou pelas praias. Lágrimas de saudade. Lágrimas de remorso. Sua cabeça eternamente baixa. E um olhar que, enquanto isso, media possibilidades...    A cidade me paga. Me paga algum dinheiro qualquer pra que tarde da noite, no meio da madrugada, eu saia da cidade quieto e só e vá penetrar a vertigem a seco, e vá perder o equilíbrio sobre o penhasco, além dos limites da cidade, tipo assim um farol desnorteado que chorasse de dor ao perceber que tenta clarear um caminho que não tem o poder de enxergar com a alma.

   Vigilante e mais além.

   Imóvel e mais além.

   Quieto e mais além.

   Só e mais além.

   Nada. E mais além.

Spin BR-S5D-07-00013

 

14. O Dourado - 2:10
(letra e música: Mauricio Pereira)
violão de aço  Luiz Waack
violão de nylon  Tonho Penhasco
voz   Mauricio Pereira
voz  André Abujamra

já é meio-dia no meio do rio
um raio de ouro atravessa a corrente
seu nome é uma lenda, provoca assobio
de todos os peixes ele é o mais valente

se eu fosse dourado eu fazia barulho
mostrava o meu manto coberto de orgulho
nadava com força contra a correnteza
pra ver se encontrava onde mora a beleza

dourado gigante que pula pro céu
cometa brilhante arrastando seu véu
êta peixe vivo, mais vivo que a vida
inunda o horizonte com a luz refletida

dourado na água, banhado no sol
sem medo de nada, faz pouco do anzol
na sua morada longe da cidade
o peixe de ouro vive em liberdade

Spin    BR-S5D-07-00014


Agradecimentos:

As irmãs Andrea e Mônica Lopes, o Natale, meu mano e filósofo otimista, a Cristiane Olivieri e a turma da Olivieri e Signorelli (Super Lenora, Priscila, Willian, Paula), a Marina, q junto c/o Luizinho meio me adotou durante a gravação, os queridos Dino Vicente e Pena Schmidt, indispensáveis, os superconvidados André, Skowão, Alice e Daniel (parceirão de Pra Marte), o rei Arthur de Faria de Porto Alegre, o Zé Luiz do Villaggio, sempre um parceiro, o meu irmão Márcio, q catou a produção a unha, o super gentleman Cristiano Mascaro e o retrato em branco e preto, a Rosangela da revelação, a Cibele do bureau, o hiper gentleman Luciano e a capa, a Biba e a Renata coopabacanas, a Adriana Bueno de novo comigo, a Mônica Tomasi pelas dicas, a Cláudia Pacheco, fono, pelo gogó, mais a Malu, a Teresa e a Eliete, q me ajudaram a manter cabeça e corpo funcionando nesse meio tempo, o pessoal querido da Lua Music (Vera, Izabel, Raquel, Junior, Alex, Julio, Edu e o Thomas), o Fernando Yasbek e a turma da Spin (Daniela, e antes a Edinise), o pessoal ótimo da UBC (a Leandra e o Adevaldo/SP, Jair e Welington/Rio), o Alexandre e a turma da MCF, o atencioso Márcio Gomes e o pessoal da gerência de PJ do Itaú da Panamericana, a Lúcia Riff e a Miriam Campos da BMSR, a Adélia Prado e a poesia dela (e q poesia, hein?), o Dani e a cocalight diária, o Renatão e a master mediterrânea c/direito ao cafezão da Maria Helena, o meu parceiro palmeirista Osvado Colibri Vita, q me ligou c/a Antonella Fossati, q me ajudou no italiano de Toscana, mais o Kurt Vonnegut Jr. e o Santo Antônio. Os meus apoiadores, a Paula queridona (Gift Express), o Kako (Usina Sonora), o Will (Mellótica) e a Camisaria Nacional (o Ricardo e a Deborah). Ainda os meus interlocutores na Petrobrás, os sempre gentis Sérgio Laks, Ricardo Motta e Amanda Rodrigues, e o patrocínio inestimável do Programa Petrobrás Cultural.
Aos músicos, Tonho, Luizinho, Mano e Leandro, pelo carinho e a atenção q eles têm c/o meu trabalho. E pro povo adorado lá de casa, Lu, Chico, Manu, Tim com seu violão e mais a Carol, q me aturam mesmo qdo eu tou gravando disco, força e alegria, pilotos de prova de canções, e mais Mãe e Pai q tão sempre ali por perto, espiando de coração.

 

direção musical: Mauricio Pereira
coordenação de produção: Márcio Pereira
assistentes de produção: Biba Fonseca, Renata Moreira Ferreira
assessoria de imprensa: Adriana Bueno/Bueno Comunicação
assessoria jurídica: Cristiane Olivieri/Olivieri & Signorelli Advocacia
assessoria contábil: Alexandre Trindade Fontes/MCF

gravação e mixagem: Dani Krotoszynski, no Waack Home Studio
masterização: Renato Coppoli, no Estúdio Zoing!
pré-produção: Mauricio Pereira, no Mocó
arranjos de base: Mauricio Pereira
projeto gráfico da capa: Luciano Pessoa/LP Estúdio
a foto da capa: Cristiano Mascaro
fotos dos músicos: Biba, Renata, Márcio

óculos: Mellótica - www.mellotica.com.br
camisas: Camisaria Nacional – www.camisarianacional.com.br
equipamento adicional: Usina Sonora – www.usinasonora.com.br
edições assinadas de “Pra Marte”: Gift Express – www.giftexpress.com.br

todas as músicas editadas por Spin Music - www.spinmusic.com.br
(exceto a parte de Adélia Prado em “Pranto para Comover Jonathan”)

distribuição Lua Music - www.luamusic.com.br

 

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